sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Chardon

     Cheguei ao sitio de meu professor às 10 horas da manha, bem antes que eu planejava. Isso se deu por que eu não esperava que as estradas do sul da França fossem tão boas. Eu tinha acabado de comprar uma Ferrari preta em Fiorano, assim que a loja abriu. Não resisti e acabei quebrando alguns limites de velocidade, presumo eu.


     “De certa forma, jamais pude desfrutar de tanto tempo vago e de tanta mordomia antes de me mudar para a Europa. Sinto-me como nos contos de fada que mamãe me contava quando pequeno. Histórias as quais eu jamais me esquecerei, repletas de flores perfumadas e coloridas, de alegrias, e sobre tudo, como todo conto infantil, com o Príncipe encantado. É realmente difícil acreditar, mas após tantas barreiras vencidas, me vejo na melhor situação possível. Sinto o vento refrescante dos campos, um bom pressentimento pulsando em meu peito e por ultimo e não menos importante o que me trouxe até aqui, a profissão que escolhi me faz hoje, um astrônomo reconhecido por todo o Mundo, mesmo ainda fazendo meu doutorado. Hoje eu sou o que nem em meus melhores sonhos eu poderia imaginar ser e desfruto de uma felicidade inigualável...”
(Sarah Eduarda)

     O campo ao redor da casa era plano, recoberto por um lindo manto roxo de ‘chardon’, cujo cheiro suave inundava o ambiente. Para completar essa paisagem, lá estavam meus anfitriões: Na frente da casa se encontravam cinco pessoas com roupas comuns, todas loiras de olhos claros. O Prof. Renan de Poale, sua esposa, cujo nome não me recordo, mas se tratava de uma dama muito elegante e tipicamente francesa. Além deles, também estavam na varanda os gêmeos Henry e Mary, de 13 anos, e o mais velho, Artur de Poale. Todos me saudaram e foram muito gentis me convidando pra almoçar.
     A casa era ímpar, toda feita em madeira de mogno e acabada em entalhes rústicos. Na parede, um cuco que de hora em hora nos alertava da passagem do tempo, que era muito vagaroso na eminência da noite que nos aguardava. À mesa tínhamos ratatouille, acompanhado de arroz e patê de tupinambor. Comemos todos juntos e Artur foi o primeiro a sair da mesa, com a desculpa que devia voltar a cuidar da plantação de chá. Não demorou muito e todos estavam satisfeitos, porém ainda era cedo para começar a preparar o equipamento para a tão esperada chuva de meteoros.
     Para fazer hora, eu e meu professor saímos e fomos admirar a paisagem, andar um pouco.
     - Trouxe todo o equipamento que irá precisar, Alastus? Se quiser tenho lentes reservas aqui em casa.
     - Não será necessário, professor. Eu trouxe tudo. Barracas, telescópio, jogos de lentes, mapas astronômicos... Acho que tudo que vamos precisar está lá no carro.
-Aí vem um detalhe importante, Alastus. Acho que não vou poder te acompanhar nesse seu trabalho. Eu fui chamado pra observar a chuva junto com os acadêmicos de Roma. Eles estão me aguardando para as oito horas, tenho que sair em breve.
     - Se o senhor ver necessidade eu posso te acompanhar, professor. Essa chuva se repetirá ano que vem, poderemos tirar as fotos do trabalho ano que vem...
     - Não quero que perca esta chance, Alastus! Ainda mais como seu orientador, devo te falar que as condições desta noite estarão bem melhores aqui do que lá na Itália. Quero que tire essas fotos e arrume as suas coisas lá no campo ao norte da casa, onde a plantação abre espaço para uma pequena pastagem. Lá você terá o campo de visão mais livre.
     - Se o senhor insiste, mas saiba que por mim não teria problema de te acompanhar.
Renan olhou em volta e acenou para Artur, que estava cuidando das lindas flores roxas de chá que circundavam a casa. O professor pediu para que o jovem me acompanhasse ate o carro e que me guiasse até o campo onde eu iria ficar, enquanto ele corria para se aprontar pra sair.
     No carro, Artur me mostrava as partes da fazenda enquanto íamos até o lugar marcado. Fiz questão de ir bem devagar para poder admirar a paisagem, que por ser inverno já pendia para o fim do dia.
     - É naquele morro ali que ficaremos. – Disse o jovem apontando para um pequeno relevo que havia na plantação, onde se via um pequeno curral e uma grande área verde de pastagem.
     - Ficaremos? Você ficará também? – Indagou Alastus.
     - Claro!!! Você acha que eu perderia essa noite? Além do mais eu quase sempre durmo por aqui. Adoro este campo à noite. Não vou incomodar?
     - De forma alguma! Adoraria ter a sua companhia. Só não trouxe comida o suficiente, você acha que pode resolver isso?
     - Parfait! Vous pouvez laisser le reste pour moi. Je l'ai eu. Não vejo a hora da noite chegar. Pare ali e me deixe ajudar a descarregar suas coisas.
     Descemos onde ele indicou, perto do curral. Dali ele me ajudou a levar as coisas para um ponto próximo onde eu montaria a barraca. Artur voltou à fazenda em um cavalo que estava no curral e me deixou arrumando as coisa.
     É nessas horas que a mente da gente viaja olhando esse céu, próximo do pôr-do-sol. Nessas horas eu limpo minhas lentes, lustro o canhão do telescópio, afino a sua mira, calculo azimutais e fico pensando nos caminhos que a minha vida pode tomar. Fico pensando que eu podia ficar aí horas contando estas estrelas que surgem aos poucos, mas seria em vão.


     “Sinto cheiro de Chardon. Ah, como tive, tantas vezes, saudades deste lugar. Ali no campo, ao sul da minha inigualável França, não podia fugir de mim. Lá, na extensão daquela planície, admirando as nuvens que abriam caminho para o repousar no horizonte do esplendor, eu me encontrava. 
     Em toda sua exuberância, o sol se escondia tímido, para dar lugar à chuva de meteoros que viria tornar luz até os cantos mais sombrios do meu ser. Sentei-me, então, a esperar, escondido naquela plantação singular, exposto àquele céu inconstante. Sinto cheiro de Chardon.” (Fernanda Pacifico)

     A noite já se adensava quando eu montei a barraca. O céu não estava negro, e sim azul escuro. Tão limpo que poderia inebriar a mente de qualquer um. Foi nesta hora que Artur voltou.
     A luz da lua cheia brilhava e iluminava o campo, eu afinava a mira do telescópio quando ele pôs a mão em meu ombro e me virei para olhá-lo. Foi um momento de epifania.


     “Ao me virar foi inevitável fixar meu olhar naqueles olhos azuis vívidos que fielmente lembravam a cor do céu em dias claros, seus cabelos eram loiros, estavam presos em um rabo, brilhavam e me davam uma vontade louca de tocá-los. Apesar da noite fria, parecia não sentir frio, estava de calça e vestia uma camiseta. Camiseta essa que realçava seu corpo, natural, mas definido. Sua postura viril me atraía de alguma maneira, tinha um ar imponente e isso fazia com que meus olhos continuassem fixados nele, àquele sorriso, àqueles olhos.. A soma de tudo que via em minha frente me passava uma sensação. Sensação essa que me atormentava, me instigava, me entusiasmava. Meu coração acelerou, minhas bochechas coraram. Eu me estremeci por dentro...”
(Letícia Ribeiro)

     -Você quer tomar um chá enquanto esperamos?
     -Claro. - Respondi quase sem palavras.
     O rapaz se abaixou ao lado, pôs duas xícaras no chão e as encheu com chá.
     -Só não trouxe de chardon porque não agüento mais tomar só isso. Eu trouxe chá de jasmim, espero que goste.
     -Claro. Deixa eu só terminar esse ajuste aqui... Provavelmente nem precisaremos usar o telescópio, o céu esta tão limpo que nos poupa desse aparato... Pronto.
     - Então... Sente-se, acho que ainda vamos ter que esperar um pouco por essa chuva, não?
     - Claro! – me assentei ao seu lado de onde podíamos olhar o céu. – Eu não sei direito que você faz aqui Artur. Como que você trabalha?
     - Eu cuido da plantação e do gado. Como meu pai está sempre trabalhando nas universidades eu que sou o mais velho sobrei pra isso... Mas estudei, sou biólogo botânico.
     - Que interessante... Mas você gosta de ficar aqui na fazenda?
     - Acho um fim muito mais útil pra meus conhecimentos ficar com as plantas que com os homens. Eu fiquei cinco anos numa faculdade pra aprender sobre plantas e nem passar perto delas?
     Não sei o porquê, mas quanto mais conversava com esse homem, mais me sentia atraído por ele... Foi nesta hora que senti sua mão pegar na minha. Ele se deitou e eu fiz o mesmo. Ele ficou apenas olhando o céu, e eu desnorteado o admirando. Sei que nada mais fazia o mesmo sentido, estava me envolvendo com o filho do meu professor.
     Nesta hora eu preferi esquecer de tudo que do mundo lá fora me acometia. Apenas me reduzi a viver o presente e admirar o céu.
     - Que pensez-vous d'une balade à cheval? – Disse o jovem, que se ergueu com pressa e me soltou, indo rápido para o estábulo e voltando com um cavalo preto lindo. Subiu nele e me estendeu a mão para que subisse. Não hesitei, subi e montei logo atrás de Artur, que pegou meus braços e os pôs envolvendo sua cintura.
     Com três beijos ele pôs o cavalo a galopar por sobre as trilhas do campo. Como montávamos o cavalo a pelo, foi impossível que eu não me sentisse escorregar, então abracei Artur firme, colocando minhas mãos em seu tórax. Não havia reparado o quanto ele era forte. Seu corpo era quente e começou a me atrair de tal forma que não pude evitar. Quando vi já estava recostado sobre seu ombro, ludibriado, vendo a paisagem linda da madrugada que passava por nós. O cosmos perfeito imperava no céu... Era perfeito demais pra eu acreditar...


     “É um céu cravejado de brilhantes, estrelas brancas perfurando o azul contrastante, e uma lua, pérola dantesca, a se destacar entre as estrelas burlescas. Quem sabe nesta noite luminosa, venham sobre mim inebriarem nebulosas a me fazer lembrar de cores esquecidas, das formas e brisas desconhecidas. Sem fim, azul eterno e libertador, a me distrair e acolher em seu esplendor...” (Vanessa Pazze)

     Cavalgamos, algo que pra mim foi como horas, até que ele parou com o cavalo no mesmo ponto de onde havíamos partido. Ele soltou o cavalo, para que este descansasse, e veio ate mim. Pegou minha mão e fomos andando e falando rumo à barraca onde íamos ver a chuva de meteoros, chuva essa que por pouco não me esqueço...
     - Então, Alastus... – Disse Artur. – Você é... Como falar... Você já ficou com um homem alguma vez?
     - Bem... Eu nunca tive nada físico com outro homem não, mas sempre me interessei por eles, assim como por mulheres. Sempre achei que esse assunto de amor não tem nada haver com o sexo da pessoa, só com o coração.
     - Eu gosto mais de homens... Mas para ser franco, hoje eu gosto mesmo é de você... – O rosto do jovem Artur se fez vermelho, púrpura. Sorriu tentando disfarçar o constrangimento, mas eu não pude deixar de notar que ele tinha muito medo do que eu ia falar a seguir. Sem muito medir, soltei sua mão e o abracei pela cintura, mantendo meu corpo a curta distância do dele.
     - Eu também estou gostando de você, sabia... Não sei o que deu em mim para não ter te notado antes, garoto. Eu estou muito feliz de que você também sinta isso.
     E dizendo isso eu olhei em seus olhos e comecei a me aproximar. Subi minhas mãos por sua coluna, elevando-as até a altura de sua nuca. Eu aproximei meu rosto do dele, passei minha mão por seus cabelos. Primeiro, apenas um toque, mas depois eu beijei finalmente sua boca, em um beijo cândido e romântico, em um beijo do tipo que purifica a alma de qualquer um. Ele permaneceu estático por mais alguns instantes, mas logo cedeu. Também passou a mão por minhas costas e me apertou forte contra seu peito. Foi como se tudo o que ele sentia, desejava e escondia, surgisse em sua frente naquele momento.
     Não conseguimos parar de nos beijar, acabamos ambos abraçados no chão, arrancamos as camisas um do outro. Nos beijávamos ardentemente. Ele passava a mão por meus cabelos e eu deslizava as minhas por seu peito. Mas antes que algo a mais pudesse acontecer, uma luz cortante passou por nós, era o primeiro meteoro daquela tão esperada chuva.
     Artur parou por um estante e sorriu para mim. Eu olhava pra seus olhos, e ele nos meus. Mais um breve beijo, seus cabelos tombados sobre meu rosto e ele me diz:
     - Então. É a primeira estrela cadente. Espero que já tenha um pedido, pois eu tenho o meu.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Um amor...


Sabe, a muito eu tinha comigo a ideologia que jogar na defesa era o melhor jeito de não se ferir com os fracassos. Hoje eu tenho certeza que quanto mais me esquivo da dor, mais ela me acomete.
Hoje venho, com esta postagem pequena, dizer às minhas esmeraldas que não vou mais brincar com os meus sentimentos. Digo que eu vou falar de uma maneira mais direta daqui em diante. Eu já calculei meus movimentos para não estar invadindo seu especo nem te forçando a algo que não caiba em seu coração.
Saiba que se eu falo que você é a figura da beleza, é por que assim te acho, sem deixar exceções. Saiba que minha felicidade depende de ti nesta hora. Saiba que serei assim como sou, mas agora não hesitarei em dizer que te amo.

sábado, 14 de novembro de 2009

Esmeralda

     Ao me deitar aquela noite, eu sabia que meus sonhos não seriam os mesmos de sempre. Não seriem por que naquele dia eu conheci um cara que se tornou muito especial pra mim, conheci o cara que hoje amo. Sei que já é tarde da noite, tão tarde que o silencio me permite ouvir meu coração, mas minha mente ainda não esqueceu aqueles lindos olhos verdes que me cativaram como nunca outros fizeram.
     E eu realmente estava certo, eu não tive sonhos comuns naquela noite. Porem até este dia eu sonhava com homens que eu gosta em cenas picantes e delirantes. Não foi bem assim... Era um baile qualquer, quem sabe ate o da minha formatura. Ele chegava de terno, lindo como sempre é, vinha ate mim e me tirava pra dançar. Ninguém nos olhava, ninguém achava estranho. Ele falava que me amava na minha orelha e eu sorria e chorava ao mesmo tempo.
     Após uma valsa, sentávamos, comíamos uma salada juntos, bebíamos vinho e ele apertava forte minha mão. Olhares trocados, algumas juras também. Nada que não seja normal de duas pessoas que se amam, ou pelo menos o fazem nos meus sonhos. Brindar com amigos, rir de piadas e ainda ter a noite toda pela frente.
     Mais uma vez saímos para dançar, desta vez um tema lindo, japonês, que sempre que ouço lembro-me deste sonho. Ele me abraça pela cintura, eu faço o mesmo. Ele olha nos meus olhos e eu navego nos dele. Nessa hora o resto do mundo congela e eu posso em fim sentir o calor desse beijo que até hoje espero e que só senti em sonho. Lábios quentes e envolventes, sua mão em minha nuca, minha consciência raleada...
     É nesta hora mais que fatal que nos separamos, nos entreolhamos sorrindo e a luz do sol que entra pela janela de meu quarto me desperta.
      Hoje eu escrevo o 5º texto dedicado em exclusividade a você, embora não tive a coragem de publicar o 4º, torcendo pelo dia em que o tirarei da minha mala para te entregar (e posso fazer isso, pois carrego todos os meus textos em minha mala). Com esse texto em especial, este que acabou de ler, eu venho te passar a seguinte mensagem: Eu nunca tive um beijo, e nem tenho presa para telo, mas agora mais do que nunca eu quero que este beijo seja seu também. E se quiser ver o 4º texto, é só me procurar e pedir!



quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Filho do Sol

O beijo durou alguns minutos, sendo intercalados por sorrisos e por meus carinhos em seus cabelos custos, loiros e ondulados, como os de um anjo. Nos poucos intervalos que dávamos, eu olhava em seus olhos azuis e pensava como um garoto como eu estava ali.
Eu sou um jovem provinciano do interior de Minas Gerais, Brasil. E aqui nesta praia, no meio do nada, banhada pelo cristalino mar caribenho, é que eu fui achar quem gostava de mim. Nada precisei fazer, apenas ser eu mesmo. Foi simples assim:
Abri um banco de madeira amável que peguei no transatlântico em que vim, e passei a ler um dos livros que havia separado para a viagem: “Les Fleus Du Mal”, de Baudelaire. Não era uma tradução qualquer, era um original, em francês, idioma em que não sou grande coisa, mas quebro um galho. Foi ai que ele apareceu. Juro que não o vi se aproximar. Fincou a prancha de surf na areis, estendeu uma toalha no chão e se ajoelhou ao meu lado. Olhou para mim, escorou seu rosto no braço do meu banco e me perguntou:
- Lovely day, isn’t it? Where you from?
Quando me virei para responder, dei de frente um dos garotos mais lindos que eu já vi. Olhos azuis, cabelo loiro e cacheadinho, pele clara, porem marcada de sol, e uma marca no nariz e debaixo dos olhos que deveria ser de parafina da prancha. Alem disso ainda tinha um sorriso capaz de desarmar qualquer um. Tentei fingir que aquele sorriso não havia me alterado, porem fui logo deixando aquele livro de lado, largando meu amado Baudelaire bem no meio de um soneto, e me virando para falar com aquele estranho.
- Yes, lovely day! I’m from Brazil, and you…
- Brasileiro?! De onde você é? Qual seu navio?
- Que bom!!! – disse surpreso e me erguendo da cadeira – Sou de Minas e vim no Sant Lucy! E você?
- Sou carioca e vim no Caribbean! Prazer, sou Filipe!
- Prazer, Alastus!
- Belo nome? Esta de férias, Alastus?
- Bem, na verdade estou. Mas não consigo me afastar do trabalho nem querendo. – Apontei para o livro.
-Você é professor de francês?
- Não, sou diretor de teatro e escritor. E você, faz o que aqui no caribe, Filipe?
- Férias, mas também trabalhando. Surfo profissionalmente. Estou treinando antes da alta temporada.
Nesta hora ele se ergueu e veio para se sentar ao meu lado no banco. Ele era mais lindo visto como um todo. O seu abdômen não é nem muito forte nem muito fraco, estava enxuto no ponto certo. O calção baixo deixava a virilha semi-encoberta, sem pelos, bronzeada levemente. Se sentou e começou a folhear o meu livro. Foi logo dizendo.
- Eu gosto de poesias também, Alastus. Você deve ser o tipo popular com as mulheres, usando os versos deste cara.
- Não na verdade. Elas meio que não vão com a minha cara. Eu nem ligo. Não ser seletivo com parceiros deixa minha vida bem mais fácil neste ponto. E você?
- Que legal! Você também é bi! Mas está comprometido?
- Bem... – Hesitei em responder, mas acabei cedendo. – Na verdade não. Meu ultimo namorado me deixou a mais de três meses. Por que?
- Me faz um favor? Tenho que ver uma coisa na cidade mais a baixo. Vigie minha prancha?
- Claro, quando volta?
- Em umas duas horas. Me espere, volto antes que você possa reparar.
Eu ele se foi. Eu fiquei inseguro, mas como sei que a grande parte dos surfistas ama mais a prancha que a própria mãe, sabia que iria voltar hoje ainda.
Ele saiu e ma deixou lendo o meu livro não era nem uma hora da tarde. Quando deram quatro horas da tarde comecei a me convencer de que ele não voltaria e de que eu não merecia em ser como aquele ao meu lado. Comecei a me convencer de que não nasci mesmo para ser feliz. E é nestas horas que eu tiro para ler Baudelaire!!! Que diabos eu estou querendo fazer, cortar os pulsos?!
Eu me levantei quando o sol tocou o horizonte, eram sete da tarde aproximadamente. O céu laranja. A areia já fria. Eu andava cabisbaixo, chutando a areia quando ouvi alguém gritar meu nome. Era ele. Veio ate mim e me disse:
- Tenho uma proposta para lhe fazer. Alastus, quer ser meu namorado?
Fiquei duro e cai de joelhos na areia. Essa foi muita surpresa. Eu não sou um lixo? Alguém ainda me quer?
- Você vê algo de mais em mim? Não sou forte, não sou belo, não sou esportista... Eu sou só um garoto de uma cidade pequena que gosta de ler!
- E é isso que me cativa em você. É doce, amável, romântico. Eu fiquei loco por você a partir do momento que te vi na praia. Eu te amo, Alastus. E não adianta fugir de mim, vou junto com você aonde for.
Ele me estendeu um papel. Era um pedido de transferência assinado. Ele iria agora para o Brasil no mesmo navio que eu. Não acreditei quando li. Ele se aproximou e me pegou pela cintura e falou bem no pé de minha orelha.
- E ai. Tenho uma chance com você, “garoto do interior de Minas”?
Não tive palavras para expressar a alegria que senti. Eu o beijei assim que pude me virar para velo.
Eu não aço necessário descrever o que veio a seguir, só quero dizer que foi a noite mais especial de minha vida. Pela primeira vez fui amado, pela primeira vez fui desejado... Pela primeira vez sou feliz!



O Enforcado

    Jogo cartas sobre este mesmo tumulo todas as terças-feiras, pois a noite no cemitério é o cenário perfeito para as leituras. Costumava a levar velas ou ate uma lanterna, mais já estava na segunda noite de lua cheia e o gigantesco orbe brilhante era mais que o suficiente para iluminar os desenhos do Tarô de Marselha.
    Tomava um vinho tinto que havia guardado para a ocasião. A taça de prata refletia o luar e exalava o doce aroma da bebida por entre as lapides. Envolvido neste clima, passei a atentar à minha leitura.
    As cartas me falaram de um rapaz misterioso que cruzaria meus caminhos. Não fazia idéia de quem fosse, mas gostaria que ele surgisse em breve porque sou inevitavelmente atraído por mistérios. Vejo-os como as gamas que dão brilho a um colar. Um rapaz pode ser lindo, mas não será nada alem disso sem um bom mistério.
    Empilhei as cartas e coloquei no bolso do meu sobretudo de seda negra, e fiquei apenas com a carta que representava aquele jovem em minhas mãos. Fiquei apenas fitando o Arcano XII do tarô, a carta do enforcado. Passava a mão por sobre meu abdome e fantasiava com aquela exótica figura.
    Ouvi um suspiro, ou uma rápida rajada do ar frio da noite. Saltei do alto da lapide onde estava e me surpreendi ao ver um estranho vulto que se aproximava em meio à neblina da madrugada. Quando já estava bem próximo, eu pude em fim ver o que era.
    Tratava-se de um jovem muito parecido comigo: Tinha pele bronze, como a de quem fica horas por sub o sol, seus olhos eram negros e o que mais nos discernia eram seus longos cabelos negros que se estendiam ate pouco abaixo do tórax, que transparecia por traz do sobretudo, também de seda negra.
    Ele veio ate mim e, sem nada falar, abraçou-me passando suas mãos por baixo da seda transparente e as fazendo apertar-me as costas.
    Fiquei temporariamente sem reação, porem assim que senti o calor que exalava de seu corpo não pude me conter: também o abracei, pondo uma de minhas mãos sobre seus fortes e musculosos braços e outra em sua nuca, por baixo das longas e macias mechas.
    Ele correspondeu logo a minha atitude. Pondo a mão em minha nuca, virou meu rosto e beijou-me a boca, enquanto sua outra mão acariciava meu ombro e retirava o manto negro que me encobria. Notando suas verdadeiras intenções, tratei de agir mais rápido que o jovem e misterioso rapaz.
    O virei e joguei no chão frio do cemitério. Abaixei e passei a beijar-lhe primeiramente o abdome. Enquanto isso arrancava minhas roupas o mais rápido que podia. Não demorou e já estávamos nus e eu, sobre seu corpo quente, deslizava minha língua sobre a morena pele.
    Não o dei um só momento de monotonia. Beijei-lhe todas as partes de seu corpo que pude alcançar. Arrombei o seu ser enquanto sussurrava em sua nuca, mordia suas orelhas e ouvia seus gritos de prazer. Fiz com que atingisse ao auge de suas emoções e fosse ao delírio incontáveis vezes, ate que ele não mais forças tinha para continuar, adormecendo sem demora.
    Fiquei sentado sobre aquela mesma lapide, olhando seu corpo sobre a grama. Por mais que quisesse acabar com o mistério, não tive coragem. O cobri com o seu sobretudo e o abandonei no chão do cemitério. No seu bolso transparente de seda deixei um numero de telefone anotado em tinta vermelha sobre o Arcano XII, e sai dali. Desapareci entre a mesma neblina que trouxe o jovem ate mim.

Em um Lago no Verão

Eu estava lendo, sem nenhum receio, na sombra de um pessegueiro as margens de um lindo lago ondulante. Foi quando vi a forma mais estonteante da minha vida.
Ele era alto, de longos cabelos negros e de pele como o trigo durante o verão. Ele estava nu e se banhava em meio aquele templo da natureza.
Não me contentei em olhar aquela cena. Fui ate a beirada do lago e me sentei sobre uma rocha. Não sei se ele havia me visto, mas ele exibia seu belo corpo como nunca vi outro fazer. Suas formas definidas e bronzeadas subiam e desciam na cristalina água. Desde então eu soube que não mais conseguiria viver sem saber quem era aquele rapaz.
Em um dado momento ele surgiu na cristalina superfície e, sem demoras, mostrou-me um largo sorriso. Foi só o que bastou para me fazer parar de respirar. Ele começou a se aproximar lentamente, e com um aceno simples e sutil saldou-me dizendo: “Você vem?!”
Não pude parar para pensar no que eu estava fazendo. Em menos de três segundos já estava sem minhas roupas e mergulhando do alto daquela rocha para dentro do gigantesco paraíso azul esverdeado.
Assim que pode me recuperar, subi para a superfície para procurar o garoto que havia me chamado, porem não o vi. Enquanto isso ele se aproximava silenciosamente. Quando o notei, me deu um abraço forte pelas costas. E, com um movimento rápido, me virou e calou qualquer expressão que eu poderia dar com um beijo.
Seus fortes braços me envolveram sem que eu pudesse evitar e , sem ter como resistis, também o abrasei. Pode então sentir o fulgor de sua alma, por seus braços eram como resistentes cordas que me mantinham cativo, seu corpo era grande imã que me atraia com seu poder.
Quando notei já estava entregue na borda do lago. Não sei como fomos parar ali. Ele deve ter remado enquanto beijávamos. Ele me encantou de tal forma que não mais via o que se passava ao meu arredor. Eu só sabia que agora não mais queria me libertar, eu queria cada vez mais me sufocar com aquele beijo.
Deitados, rolamos na grama sem pudor. Ele envolveu meu corpo como um todo. Sua boca deslizou por meu corpo e a minha pelo dele. Eu pude sentir seu sabor fálico, suas emoções explosivas, seu calor sobre as frias rochas.
O movimento compassado se somava a sua mão que deslizava em minha cintura, estando a desta em meu peito. Poucos segundos passavam e sua respiração já aquecia meu pescoço e me arrancava delírios. A dor da paixão era a mais doce que já provei. A esta altura nossos gritos não mais negavam: Não estávamos mais em nos.
Juntos ficamos por minutos, possíveis horas, e no fim chegamos juntos no êxtase de nossas emoções, o doce sabor do prazer. Porem não mais deste êxtase saímos. Ele adormeceu sem demora, pousando sua mão em meu tórax quase oculto por seus negros cabelos.
Não sei o que farei ao seu despertar, só sei que não mais serei eu. Agora serei um ser completo e preenchido por ele. E sei também que nunca mais acharei aquele belo livro que lia embaixo de um pessegueiro.


Quem me dera

Quem me dera ter comigo um homem nu.
De largos ombros, trigueira pele e angélica face,
De olhar profundo, de braços fortes e de lábios ardentes,
Quem dera ter a personificação de meus sonhos

Teria o prazer de arrancar de sua alma os mais profundos suspiros
Teria o prazer de saber todos os teus cheiros e sabores
Teria o prazer de acariciar seu ventre vendo-o se agitar e retorcer
Teria o prazer de tirar-lhe todas as faces deste mesmo prazer

Poderia ver-lhe preencher-me com sua carne e vida
Poderia amar-lhe, com tal fulgor que jamais senti
Poderia testar em ti meu corpo, testar teu corpo no meu
Poderia beijar-te tanto que te desmaiaria sem nem notar.

Teríamos horas de amores trocados sobre um leito mundano
Não teríamos pudor, nem cautela, nem receio, nem medo
Não teríamos piedade, nem compaixão, nem amor, somente fogo
Teríamos o tempo de aprender tudo que o próprio tempo nos ocultou.

No fim deste eterno delírio de emoções e profanação
Não haveria alma em mim, não haveria consciência em mim,
Não haveria nome em mim, não haveria dor em mim.
O fim seria pra mim o de todas as minhas duvidas.